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sexta-feira, 21 de março de 2025

TANTO FEITO NO BRASIL


No mundo da espada Japonesa. 

 Trinta e quatro anos depois, uma outra peça rara e interessante aparece... 

 Por Laerte E. Ottaiano expert e polidor de espadas japonesas (Nippon-tô). 


    Como é fato conhecido publiquei no ano de 1989 no nº 39 da revista Bijutsu Token (edição em inglês) da NBTHK do Japão um artigo intitulado “A força da tradição” uma descoberta curiosa na terra “do outro lado do mundo”, relatando haver encontrado em São Paulo uma espada japonesa assinada “Kikuchi Enju Tatsukuni” que como fiquei sabendo pelo proprietário, havia sido produzida no Brasil em 1946. Como não houve mais contato com o colecionador, não se sabe mais nem onde ou com quem se encontra esta peça. 


    Muito bem, agora mais uma vez, algo aconteceu. Poucos dias antes do natal de 2009, fui visitado por um velho conhecido, o cuteleiro Roberto Gaeta, para quem tenho prestado alguns serviços de polimento de lâminas. Nesse dia encomendou mais um trabalho: apresentou-me um “tanto” montado em “shirassaya” de pinho brasileiro e pediu-me para tratar a lâmina e produzir uma montagem digna. Ao abrir para ver o tipo de lâmina que eu deveria tratar, encontrei uma lâmina correta (hirazukuri) com sulco em um dos lados (frente).Vide fotos. Havia sido passada em politriz de roda de pano, portanto não estava enferrujada. Como sabemos a politriz traz um brilho excessivo e esconde características como textura de superfície e linha de têmpera. Tal como pude observar era possível fazer o polimento tradicional correto. Fui informado sobre uma linha ou desenho de têmpera, olhando com mais atenção e com melhor ângulo de luz, foi possível vislumbrar este detalhe. 

     A seguir, abrimos a empunhadura para examinar o “nakagô”. Para a minha surpresa, havia em bela caligrafia, uma assinatura com dois caracteres lendo-se “Sukemune” e do outro lado do “nakagô” uma data em numerais japoneses (com outro tipo de caligrafia) lendo-se “1976 ano”. O “yassuri-me” (marcas de lima) e a cor não são exatamente regulares más plenamente justificáveis em função da época e do autor. O proprietário desconhecia o nome Sukemune más conheceu, porém o finado e caro Srº Yoshisuke Oura que viveu na área de Moji-Suzano e foi conhecido “Espadeiro” produzindo kataná para treinamento de Iai e Kendô, especialmente para a colônia japonesa durante quase três décadas: de 1948 (a sua primeira espada) até 1980 a última espada. 


    Oura sensei havia adotado o nome artístico de Sukemune baseado num dos grandes espadeiros do Japão da província de “Bizen” da era “Heian Kamakura” e produzia suas espadas com a forma de curvatura de “Bizen” (koshizôri) e têmpera ao mesmo estilo conhecido como“gunomê-notarê. O aço utilizado era brasileiro ou sueco em barras, com teor de carbono 1045. A têmpera mesmo sendo clara e visível, era produzida com temperaturas mais baixas que aquelas no Japão, produzindo assim menor diferença de dureza entre a área temperada e não temperada. Oura sensei produzia também montagens dentro de âmbito de suas habilidades pessoais. 

    Nessa época Oura sensei era o único com capacidade de polidor, tinha todas as pedras necessárias, materiais de acabamento e a técnica. Eu era um dos seus clientes de polimento para espadas que trazia do exterior. 

    Em 1970 o sensei sofreu um acidente e precisou de um longo período de recuperação. Em 1972 quando lhe fiz uma visita de cortesia, Oura sensei declarou que não poderia mais prestar serviços, pois se encontrava muito debilitado. 

    Nessa ocasião argumentei sobre a minha necessidade de prosseguir com minha coleção e, portanto ter as lâminas polidas, surgindo nesse momento a idéia de aprender com ele a arte do polimento, com o que Oura sensei concordou sorrindo. Três anos se passaram, recebi lições e instruções preciosas no seu atelier em Suzano. 

 No final de 1975 recebi do Japão, um conjunto de pedras, materiais e instrumentos de acabamento, podendo daí por diante prosseguir praticando no meu próprio local de trabalho. Desde então e até hoje, pratico a arte do polimento e posso dizer com orgulho que meu trabalho pode ser igualado a qualquer outro profissional do Japão na modalidade chamada “Sashikomi”. 

 Agora na passagem do ano de 2009 para 2010, aparecendo como que por encanto, este “tanto” aliás, o primeiro e único que eu havia jamais visto assinado e datado de 1976, vem ás minhas mãos para ser “salvo”, o que faço com a maior satisfação e orgulho. Vale também dizer que “tanto” de mestre Oura são raros, pois que dizia ele, “podiam ser usados como armas, enquanto que as “kataná” não eram carregadas por aí à toa...” 

 Concluindo, além dos fatos usuais do dia a dia relativos ao nosso prazer e à nossa paixão pelas Nihon-tô, um fato como este deve ficar registrado, uma vez que traz o inesperado, e a peça de caráter único, que provavelmente, não mais se repetirá. Este é também um bom motivo para rever velhas lembranças e agradecer ao espírito do caro Oura sensei.

Laerte E. Ottaiano.
 Fevereiro de 2010.
 São Paulo SP. Brasil




Apêndice Dados do tantô 

 Montagem Originalmente “shirassaya”.

 Atual: “aikuchi koshirae”, em laca preta por Laerte E. Ottaiano. 

 Lâmina Medidas - Comprimento: 21cm; largura base: 2.2 cm. 

 Material - aço 1045.

 Forma: “hirazukuri” (um plano de superfície), yorimune (dorso em v invertido). 

 Gravação (horimono) – “bo hi” (sulco na face da frente). 

 Particularidade – “niku tsuki” (superfície cheia) e “fukura tsuki” (ponta cheia).

 Curvatura: ligeira sakizori (na ponta).

 Pele (hada): muji -sem padrão.

 Têmpera (hamon): gunomê midarê Têmpera na ponta (boshi) quase sem volta. 

 Nakagô Forma: futsu (comum). 

 Yassurime (marcas de lima) kate sagari (irregular). 

 Furo (mekugi-ana) 01.

 Terminal: assai kurijiri. 

 Mei (assinatura): Sukemune (frente). 

 Data 1976 ano (atrás). 













sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

PRÍNCIPE BRASILEIRO NO JAPÃO

O primeiro Príncipe brasileiro a visitar o Japão foi um neto do Imperador Dom Pedro II. 


Augusto Leopoldo de Saxe-Coburgo e Bragança era o segundo filho da Princesa Leopoldina, irmã da Princesa Isabel. O príncipe servia na Marinha Imperial como segundo tenente, a bordo do navio Almirante Barroso, e ao chegar ao Japão em 1889 visitou o Imperador Meiji. Infelizmente, logo após a visita ao Imperador, aconteceu no Brasil o golpe da república, e por ordens do novo governo brasileiro ele foi desembarcado no Ceilão e proibido de voltar ao Brasil. 

 Durante esta viagem, dom Augusto - juntamente com os outros oficiais de bordo - foi recebido pelo Imperador Meiji, conforme registrou o almirante Custódio de Melo: "Sua Magestade saudou-nos muito amavelmente e por intermedio do mestre de cerimonias, que dirigia-nos a palavra em francez, perguntou-me qual o itinerario da nossa viagem, assim como disse-nos que muito desejava estabelecer com o Brazil relações de commercio e amizade; e como lhe perguntasse eu, sempre pelo orgão do visconde de Hojikata, porque não mandava ao nosso paiz um navio de guerra, respondeu-me que era muito longe, e então redarguindo-lhe que tão longe ficava para os brazileiros o Japão quanto o Brazil para os japonezes, riu-se Sua Magestade ao ouvir do mestre de cerimonias a objecção que lhe vinha de fazer. Ao principe D. Augusto, que era um dos oito officiaes, perguntou o Mikado pela saude do ex-imperador, depois de o haver Sua Alteza comprimentado da parte deste." (Vinholes, 1995)

Na História do Japão, a Era Meiji marcou o fim do sistema feudal dos Shoguns, e deu início à modernização do país. Em 1889, enquanto o Japão Imperial progredia velozmente, o Brasil perdia seu lugar entre os grandes do mundo, pelas mãos dos golpistas traidores.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O Instituto Cultural Niten



O Instituto Cultural Niten (Instituto Niten) foi fundado em 1993 pelo Sensei Jorge Kishikawa na cidade de São Paulo, Brasil.
Baseado num passado marcial que combinava sua educação japonesa, formação militar, formação como atleta do kendo, o Sensei Jorge Kishikawa criou o Instituto Cultural Niten como uma ferramenta para transmitir para atletas e interessados no Brasil aspectos da filosofia samurai e da cultura japonesa através do treinamento com a espada samurai(kenjutsu).


No Instituto, os alunos tem condições de se desenvolver no estudo das artes tradicionais japonesas que envolvam o uso da espada, sendo as modalidades principais o kenjutsu, o iaijutsu e o jojutsu. Além destas modalidades, outras também são praticadas como o kusarigamajutsu, jittejutsu, bojutsu, tanjojutsu.

Além das metodologias de ensino tradicionais japonesas, no Instituto Cultural Niten ainda desenvolve outras ações educativas como por exemplo o uso do método KIR. Este método desenvolvido pelo Sensei Jorge Kishikawa aborda de uma forma diferente os ensinamentos das artes marciais, no sentido de promover a potencialização das capacidades pessoais como seres humanos, preparando-os a se tornarem guerreiros e enfrentarem as adversidades do mundo moderno. O método KIR é passado aos alunos em várias formas dentro do Instituto, seja através de leitura de livros como Shin Hagakure - Pensamentos de um Samurai Moderno, livro de sua autoria do Sensei Jorge Kishikawa publicado em 2004, seja através dos chamados Momentos de Ouro ou ainda através da própria internet, o Café com Sensei.

O nome "Niten" deriva do estilo de kenjutsu fundado pelo samurai muito famoso, Miyamoto Musashi, o Niten Ichi Ryu. Os ensinamentos do Niten Ichi Ryu podem ser lidos na obra O Livro dos Cinco Anéis, de Miyamoto Musashi.
O Instituto Cultural Niten possui várias unidades no Brasil, Argentina e Chile. É fundador e filiado à Confederação Brasileira de Kobudo (CBKO) e parte de seus professores à Nihon Kobudo Kyokai (Federação Japonesa de Kobudo).



Estilos Praticados
O Instituto Niten é considerado um dos mais importantes centros de estudo do Kobudo fora do Japão1 . São praticados os seguintes estilos :

Hyoho Niten Ichi Ryu
Estilo fundado por Miyamoto Musashi. O Instituto Niten segue a linhagem principal do estilo, que se encontra sediada na cidade de Usa, prefeitura de Oita, no Japão sob a liderança do Shihan Gosho Motoharu e do 12° sucessor Yoshimoti Kiyoshi3 . O Sensei Jorge Kishikawa é discípulo do Shihan Gosho Motoharu. Possui Menkyo Kaiden, a mais alta graduação no estilo, tendo recebido diretamente do Shihan Gosho Motoharu.

Suio Ryu Iai Kenpo
O estilo está sediado no Japão sob a liderança do 15° Soke, Yoshimitsu Katsuse Kagehiro. O Sensei Jorge Kishikawa é discípulo do Soke Katsuse e representante oficial na América do Sul.

Shindo Muso Ryu
O principal estilo de Jojutsu e uma das escolas de Kobudo mais praticados no mundo. Foi fundado no século XVII pelo samurai Muso Gonnosuke. Um dos principal mestres do estilo hoje no Japão é o Sensei Kaminoda Tsunemori, Shihan da 26ª geração. O Sensei Jorge Kishikawa é discípulo de Kaminoda Sensei há muitos anos, sendo o representante oficial do estilo para a América do Sul.

Muso Shinden Ryu
Um dos mais praticados estilos de Iaijutsu no Japão. Kaminoda Tsunemori Sensei, principal autoridade no estilo de Jojutsu Shindo Muso Ryu, é também um grande mestre deste estilo. O Sensei Jorge Kishikawa treina o estilo sob sua orientação há muitos anos.

Sekiguchi Ryu
Estilo de Iaijutsu fundado no século há 400 anos por Sekiguchi Yarokuemon Ujinari. Aoki Kikuo sensei, o 8° Soke do Hyoho Niten Ichi Ryu, o estilo de Miyamoto Musashi, foi também Soke do Sekiguchi Ryu. O Shihan Gosho Motoharu é hoje a principal autoridade técnica nos dois estilos.


Confederação Brasileira de Kobudo
O Instituto Niten compõe a Confederação Brasileira de Kobudô (CBKob), presidida pelo mestre Kishikawa. A Confederação organiza anualmente dois torneios Brasileiros, o Individual no primeiro semestre e o Por Equipes no segundo semestre.

Atualmente o Niten é o único membro da Confederação. Ela congrega os estilos praticados dentro do Instituto Niten:

Hyoho Niten Ichi Ryu Kenjutsu
Suio Ryu Iaikenpo
Shindo Muso Ryu Jojutsu
Ikkaku Ryu Jittejutsu
Isshin Ryu Kusarigamajutsu
Uchida Ryu Tanjojutsu
Muso Shinden Ryu Iaijutsu
Sekiguchi Ryu Battojutsu
E também o estilo Tenshin Shoden Katori Shinto Ryu, do qual mestre Kishikawa é Shidousha para a América do Sul.


Referências
Ir para cima ↑ (Português) (Japonês) Revista Kendo Nippon: Páginas 112,115, jan/2006 "O Espírito que enriquece os brasileiros"
Ir para cima ↑ Instituto Niten. Estilos Praticados (html) (em Português). Instituto Niten. Página visitada em 27/02/2008.
Ir para cima ↑ (Japonês) Revista Kendo Nippon: Páginas 62,65, set/2007
Ir para cima ↑ http://www2.wbs.ne.jp/~nck/suiou/suioudoujou.htm

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Hagakure e Bushidô por Yoshiaki Kishikawa


1. O que é Bushidô?

Inicialmente vamos efetuar uma breve retrospectiva sobre a história do Japão com a finalidade de conhecermos a origem e as transformações dos Samurais, do Código Samurai e do Bushidô.
Nos meados do séc. XI surgiram os Samurais no Japão. Entre eles, destacaram-se os dois grupos mais poderosos: o de Heiji e o de Guenji, nos meados do período Heian. No século XII estabeleceu-se pela primeira vez um governo militar (o governo de Kamakura), o que deu início ao feudalismo no Japão.
Ao organizar o governo, Minamotono Yoritomo procurou dar o último retoque à estética dos samurais, melhorando-a com características feudais. A base desse regulamento consistia na união entre servos e vassalo por um laço de dever moral designado “On” e “Gui”. Um vassalo tinha como dever a absoluta lealdade para com o senhor, e o senhor devia assegurar a subsistência e o bem estar social do vassalo. Era uma lei de amparo mútuo dentro da hierarquia social e militar, que serviu de pedra fundamental para sustentar o governo Kamakura.
Este primeiro código de samurais escrito chamava-se “Gosseibai Shikimoku”. O Budismo (que há mais de seis séculos já havia sido introduzido no Japão) nesse período tomou um caráter essencialmente nipônico e influenciou significativamente os samurais, devido sobretudo ao surgimento de novas seitas, como por exemplo a seita Zen, que ainda hoje predomina em grande parte do povo japonês.
No fim do período Muromati (meados do séc. XVI), o governo Muramati já havia perdido sua força executiva e militar. O laço moral que até então unia o senhor aos seus vassalos acabou se desfazendo. Assim, deu-se início ao famoso período de Sengoku no séc. XVI. Este período foi uma época de confusões.
Os senhores feudais haviam se apoderado de grandes regiões, e todos eles tinham a ambição de centralizar os poderes provinciais. Esta ambição trouxe a decadência da ética  dos samurais: o laço moral que outrora unia o senhor ao seu vassalo rompera-se.
Após uma longa época de Sengoku, Tokugawa Ieyassu estabeleceu um governo no começo do séc. XVII que se estendeu por quase 300 anos. Tokugawa planejou cuidadosamente e promulgou normas rigorosas para os vassalos consolidando o regime feudal novamente.
Na época de Tokugawa os princípios fundamentais eram os do “Confucionismo”, que eram levadas muito a sério e influenciaram bastante o Código do  Samurai, o Bushidô.
A influência do Confusionismo neste período transformou os guerreiros ambiciosos e violentos do período Sengoku em cavaleiros nobres e educados. Neste período foi concretizada “A Teoria do Bushidô”por Yamaga Sokoh, baseada no Confucionismo e determinada como o Estudo oficial do governo de Tokugawa. Esta teoria do Bushidô foi propagada amplamente em todo território nipônico e penetrou profundamente em todas as classes do povo, tendo sido transmitida e seguida durante 300 anos na história do Japão. Este é o alicerce da formação do povo do Japão.

2. O que é Hagakure?

Após a unificação do país pelo estabelecimento do governo Tokugawa, o povo japonês desfrutou de um longo período de paz e prosperidade. Consequentemente começaram a surgir novamente sintomas de depravação do Bushidô no séc. XVIII.
Os samurais da província de SAGA (antiga Nabeshima) Yamamoto Tsunemono e Tashiro Tsuramoto sentiram profundamente a decadência do Bushidô: assim surgiu o Hagakure. Eles levaram 7 anos para terminar a compilação do Hagakure a partir de 1710.
O Hagakure é composto de prefácio de 11 volumes. Foi narrado por Yamamoto Tsunemono e escrito por Tashiro Tsuramoto. Os livros explicam o modo de viver, de morrer, de servir ao senhor feudal como samurai de Nabeshima, enfatizando a fidelidade, a benevolência, responsabilidade e vergonha os quais foram as normas dos samurais de SAGA.
Atualmente o Hagakure tem sido divulgado não só no Japão, mas também no mundo inteiro como sendo um livro clássico de filosofia. Os estudiosos e adeptos do Hagakure tem aumentado consideralvelmente nos últimos anos.
No Japão existe a Academia de Estudos do Hagakure, a qual promove simpósios internacionais sobre o Hagakure com grande êxito, chamando a atenção do mundo inteiro.

3. Qual a influência do Bushidô nos tempos atuais?
O espírito do Bushidô, tradição milenar no Japão, é o caminho para a formação do caráter do indivíduo que serviu, seve e servirá em qualquer lugar e época.
O Bushidô influenciou e contribuiu significativamente à formação do espírito do povo japonês e até hoje influencia os japoneses. As virtudes do povo japonês tais como: diligência, laboriosidade, honestidade, lealdade e obediência são oriundos do Bushidô. Estas virtudes foram a força motriz para a reconstrução e a prosperidade do Japão.
No ano de 1904 quando eclodiu a guerra entre o Japão e a Rússia, o conde Kaneko Kentaro, embaixador nos EUA, solicitou ajuda ao presidente Theodore Roosevelt para intermediar um pacto de trégua.
Na ocasião o presidente americano perguntou ao conde Kaneko o que era o Bushidô que frequentemente aparecia nos jornais. O conde Kaneko respondeu: “A sua pergunta veio na hora certa. Justamente neste momento tenho um livro chamado Bushidô escrito em inglês, de Nitobe Inazoh. Leia-o” e deu o livro de presente.
O presidente encomendou 30 livros, dos quais entregou 5 para seus filhos e os outros 25 para senadores, deputados, ministros, parentes e amigos. Ao entregar o livro de presente dizia: “Leiam este livro. Nós americanos devemos aprender o Bushidô, a filosofia natural do Japão que serve como orientadora de vida. Nós americanos podemos estudar e praticar sem nenhuma hesitação.”
O presidente compreendeu o Bushidô através deste livro e ficou muito mais entusiasmado com o Bushidô de 110 anos atrás. Posteriormente ele encomendou tatames, convidou um mestre de judô e praticou na residência oficial. Há mais de um século atrás o Bushidô japonês era elogiado e valorizao pelos americanos.
Os descendentes nipônicos que vivem aqui no Brasil receberam este espírito do Bushidô por seus antepassados. É do conhecimento de todos que os descendentes japoneses estão sendo altamente estimulados neste país.
Eu ensino Kendô na sede da Associação Saga Kenjinkan, com o espírito de ensinar jovens e crianças o Bushidô através da prática de Kendô, para que eles possam futuramente servir como elementos úteis à pátria.
Yoshiaki Kishikawa
SAGA (Hagakure - Kan)
7º Dan, Kyôshi​



sexta-feira, 5 de julho de 2013

Tomizo Ishida Sensei - Katana Kaji - Mestre Forjador de Espadas Japonesas.



A origem de um Katana Kaji, Mestre Forjador.
Tomizo Ishida Sensei pode ser considerado o mais criativo e inovador dos artesãos japoneses que produziram katana no Brasil. Nasceu em Gumma, próximo a Tóquio, em 24 de novembro de 1924, tendo chegado ao Brasil com seus pais em 1933, para trabalhar em uma fazenda de Mirandópolis, São Paulo.
Desde sua infância, Tomizo Ishida Sensei teve fascinação por espadas japonesas, embora não descendesse de uma família de "espadeiros".

Em 1949, aos 25 anos, Tomizo Ishida Sensei resolveu vir para a cidade de Mairiporã (a 50 km da capital paulista). Poucos anos depois tornou-se relojoeiro e ourives, abrindo seu próprio negócio.
Apenas em 1962 que Ishida Sensei decidiu se iniciar na produção de espadas japonesas. Foi de forma amadora que começou a produzir exemplares de katana, wakisashi e tatchi, baseando-se apenas em livros que parentes do Japão lhe enviavam. Posteriormente, teve contato prático com Oda Sensei e Oura Sensei, renomados artífices de espadas japonesas no Brasil.
Ao longo dos anos, Ishida Sensei se tornaria conhecido não só por forjar boas katana, mas também por produzir furnituras tais como tsuba, fuchi, kashira, menuki e saia, itens que naquele momento eram considerados os mais aprimorados dentre os oferecidos pelos mestres espadeiros japoneses radicados no Brasil.

Tomizo Ishida Sensei foi, desde o início de sua atividade de katanakaji (forjador de katana), inovador em suas criações, tendo desenvolvido um método próprio de trabalho, interpretando as clássicas espadas japonesas e adaptando-as ao seu estilo e experiência pessoal como praticante de Iai Do (estilo de esgrima japonesa, bastante diferente do Kendo conforme o conhecemos hoje, que se caracteriza pelo saque preciso, rápido e fulminante). Assim, a maioria das criações de Ishida Sensei fugiu de algumas regras convencionais e ortodoxas que essas clássicas espadas têm. Entre as mudanças destacam-se:
O orifício da passagem do pino (mekugi-ana) que trava a lâmina é sempre colocado um pouco mais para trás do que o habitual. Dentro da geometria de suas katana, Ishida Sensei entendia que isto as travava melhor e de forma mais "sólida".

A espessura da lâmina é levemente menor e a largura pouco maior do que os padrões tradicionais, tendo em vista o entendimento de que os aços modernos são naturalmente de melhor qualidade, e que tudo isso proporcionaria um equilíbrio mais adequado ao sabre.
A linha de têmpera é mais alta do que a convencional. Alguns katanakaji modernos do Japão também adotaram essa técnica a partir de 1960, quando lá reiniciou-se oficialmente a produção de espadas; com isso, eventuais pequenos "dentes" da lâmina poderão ser retirados no re-polimento sem diminuição consistente da área temperada.
Em algumas criações especiais ou para uso pessoal, o primeiro seppa (espaçador), aquele na junção entre a empunhadura e a tsuba, é em couro laqueado. Segundo Ishida Sensei, o objetivo é amortecer mais as vibrações ocasionadas por golpes, que, de outra forma, seriam forçosamente passadas às mãos do espadachim.




A técnica de forja de Ishida Sensei.
Assim como Kunio Oda, Ishida Sensei forjava suas espadas na técnica maru-gitae inicialmente usando aço carbono 1045, posteriormente passando ao aço do tipo RCC (designação comercial; equivalente ao atual VC-130) por seu maior conteúdo de carbono.
A criatividade de Ishida também podia ser observada no hamon de suas katana, pois o artesão o produzia em 3 (três) tipos: 
- gunome (sucessão de picos irregulares)
- notare (ondas) 
suguha (quase reto)

Nas furnituras que decidiu produzir, a preferência de Ishida recaiu naquelas de "estilo primitivo", rústicas mas muito robustas, a maioria sendo fundidas a partir de moldes que o próprio artesão, como ourives que era. A marcante preferência do artesão por motivos de dragões era revelada nas kashira (pomos) e nos menuki. Os fuchi (calços) com a figura de um sábio japonês lendo escrituras sagradas foram uma constante a partir do final da década de 1970.

Por ser praticante de Iaido do estilo Shinto Ryu (mesmo estilo praticado pelo Mestre Akira Tsukimoto), Ishida Sensei desenvolveu especial predileção pela manufatura de uchigatana (literalmente, espadas de combate), com lâmina de comprimento entre 53 e 62 cm, e é neste tipo que encontram-se algumas de suas mais refinadas criações.
Para seus uchigatana, Ishida Sensei chegou a desenvolver um tsuba próprio, inspirado num original muito antigo, o qual acabou tornando-se uma das preferidas da clientela. Embora obtida por boa fundição, os detalhados desenhos de flores, folhas, bambus (que por vezes tornavam-se feixes de palha) e a rede de pesca vazada em cerca de 50% de sua área exigiam do artesão demorado e detalhado trabalho de retoque.
Seus habaki (ou colarinhos da lâmina) são sempre de cobre, lisos, imediatamente reconhecidos por generosa espessura e um pronunciado chanfrado na parte dianteira, para facilitar sua entrada na bainha.
Ishida Sensei usou tanto same (pele de arraia) importado quanto nacional e era relativamente freqüente o artesão tratar os de granulação fina com laca dourada em técnica similar a usada no Japão feudal para montagens de alto luxo, o que lhes concedia uma aparência mais destacada. Entretanto, Ishida Sensei apenas usou fitas importadas, de seda ou algodão, mas a maioria na cor negra.
A quase totalidade das criações de Ishida apresenta montagens completas, do tipo bukezukuri (literalmente, ao modo da casa dos samurais).
Ao contrário das saia (bainhas) da fase inicial, só negras, pintadas, criações das fases intermediárias (a partir de 1978) e final as apresentam em lacas de cores variadas, mas com nítida preferência pela aplicação de grânulos pequenos e esparsos de purpurina multicolorida, também como algumas originais antigas de alto luxo.
Ishida Sensei apenas assinou criações cuja lâmina tivesse o desenho de um detalhado dragão numa das faces, lavração que ele mesmo executava a buril. Na maioria das demais criações, usou marcas de lima do tipo katte-sagari (levemente inclinadas), nos nakago cujas formas eram, na maioria dos casos, comuns (futsu), com cortes terminais em "V" irregular (iri-yamagata) ou em linha reta (kiri).



Reconhecimento do Forjador Mestre Espadeiro.
Yoshisuke Oura considerava Ishida Sensei como um discípulo forjador e o tratava com respeito, sendo também freqüentes os cumprimentos pela alta qualidade de suas bainhas e o desenvolvimento de furnituras elaboradas. Quando Oura faleceu em 2000, uma das coisas que legou a seu filho Haruo foi um conjunto de 3 tsuba especialmente confeccionadas por Ishida Sensei e que dele havia ganho.
Em 1988, com as comemorações oficiais dos 80 anos da imigração japonesa para o Brasil, Ishida foi comissionado pelos organizadores das festividades para confeccionar uma espada alusiva ao fato. O artesão forjou então uma soberba lâmina e para ela projetou uma montagem totalmente executada em bambu e com fitas de couro, como algumas raríssimas originais pós 1860. Essa inusitada criação, Nagasa de 78 cm, foi exposta durante boa parte daquele ano no famoso Bunkyo da Associação Cultural Japonesa, no bairro da Liberdade.
Em 1991, ele e sua esposa foram agraciados pela sociedade japonesa no Brasil com os títulos de comendadores grã-cruz por sua contribuição às artes nipônicas no Brasil.
Em sua primeira fase, produziu cerca de 350 espadas e informou que de tanto forjar lâminas durante longos períodos sem interrupção comprometeu muito a audição de um dos ouvidos. O artesão teve 3 filhos homens, mas nenhum seguiu seu ofício.
A partir do final da década de 1980, Tomizo Ishida Sensei diminuiu muito a produção das katana, vindo a encerrá-la oficialmente em 1992. Entretanto, a partir do final de 2004, felizmente, Ishida Sensei retomou a produção de espadas em edição limitada de suas famosas katana.




Ishida sensei atualmente é considerado pelo governo japonês um tesouro nacional fora do Japão.




Fonte :http://ishida.atipico.com.br