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quinta-feira, 12 de junho de 2014

Energia vital


 A denominação para essa energia varia de acordo com o país ou cultura a qual ela tornou-se alvo de estudos. Podemos citar:
  • ·         Polinésia: Mana
  • ·         Índia: Prana
  • ·         Países Islâmicos: Baraka
  • ·         China: Chi
  • ·         Japão: Ki

Seu conceito e aplicação são extremamente diversos e cabe a cada indivíduo assumir para si a melhor definição que lhe aprouver. Todas essas culturas se referem a essa energia vital, que permeia o Universo, como sendo aquilo que faz viver, que revitaliza, que está em todo lugar e nutre todos os seres viventes. No individuo, ela funciona como sendo a mola propulsora que movimenta, anima e possibilita ao ser vivenciar e experienciar atividades de diversos matizes. Para alguns, o tema soa como algo transcendental, para outros, algo comum do nosso cotidiano.

            Diversos segmentos utilizam e instruem seus alunos/discípulos quanto ao seu uso como os xamãs, os praticantes de Yoga, meditação, curas metafisicas e artes marciais. O uso indiscriminado por pessoas leigas/curiosas pode provocar repercussões indesejadas já que essa energia tende a seguir os ímpetos do pensamento, ou seja, dependendo em qual direção eles estejam, é certo que essa energia vital do individuo irá potencializar a existência do ser a atingir tal objetivo e por isso a necessidade de um instrutor/guia para que essa experiência seja vivenciada da maneira mais saudável possível.

            Na cultura oriental diz-se que quando a energia do individuo está em desarmonia ou desequilibrada, obstruída ou escassa manifesta-se em forma de doença no corpo físico. Um exemplo desse declínio da energia do individuo está no fato de ter aprendido a respirar de forma errônea. O diafragma que é o responsável por essa função foi inadvertidamente trocado pelo pulmão. A frase mais conhecida é: “respire fundo até encher os pulmões”. A respiração deixou de ser diafragmática para ser torácica. Esse fato fez com que a obtenção dessa energia, que está em todo lugar, tivesse a sua absorção drasticamente reduzida.
A partir do momento em que seu fluxo no corpo está regular a pessoa sente-se bem disposta, animada e ativa. Seu equilíbrio pode ser restaurado através de diversas fontes naturais como o ar, a água, o alimento, o sol. A revitalização também pode ser obtida por técnicas bastante difundidas ao redor do mundo e podemos citar:

·    Reiki: através de um sistema próprio, possibilita absorver e manipular a energia imanente no universo.
·      Chi Kung: técnica bastante conhecida dentre os praticantes de arte marcial chinesa.
·       Johrei: técnica utilizada para canalização da energia espiritual universal por religiosos
  
O conhecimento intelectual descrito neste texto pode ser encontrado em diversos sites na Internet e em nada servirá de aprendizado àquele que deseja estudar tal área. É necessário antes de tudo treinamento. Esse treinamento deve, sobretudo, ser supervisionado por alguém que realmente saiba o que está fazendo. Apostilas e vídeos que prometem ensiná-lo a dominar as suas energias podem ser extremamente prejudiciais quando feito por conta própria.
Energia vital

O ponto chave é adotar uma vida de bons hábitos e como consequência natural terá uma vida equilibrada. Um mestre do zen-budismo chamado Soyen Shaku (1859-1919) propôs algumas regras a serem seguidas no cotidiano para uma vida melhor:

“De manhã, antes de vestir-se, acenda incenso e medite.
Coma a intervalos regulares e deite-se a uma hora regular.
Coma sempre com moderação e nunca até ficar plenamente satisfeito.
Receba as suas visitas com a mesma atitude que tem quando está só.
E, quando só, mantenha a mesma atitude que tem quando recebe visitas.
Preste atenção ao que diz e, o que quer que diga, pratique-o.
Quando uma oportunidade chegar, não a deixe passar,
mas pense sempre duas vezes antes de agir.
Não se deixe perturbar pelo passado. Olhe para o futuro.
A sua atitude deve ser a de um herói sem medo,
mas o coração deve ser como o de uma criança, cheio de amor.
Ao retirar-se, ao fim do dia, durma como se tivesse entrado no seu último sono.
E, ao acordar, deixe a cama para trás,
instantaneamente,
como se tivesse deitado fora um par de sapatos velhos.”

sexta-feira, 21 de março de 2014

Em busca da Espada Perdida … Aikidô


Ao falecer o Fundador, em 1969, o treinamento de espada na Hombu Dojo (Academia Central) no Japão deixou de ser parte do currículo. Naquele tempo, o treino com espada estava disponível os alunos mais graduados e era realizado a “portas fechadas”. 
Pelo contrário, o treinamento de desarmar os oponentes continuou sendo parte dos processos de exame até hoje.

Já o estudo do uso e manuseio da espada, para todos os efeitos práticos, foi completamente suspenso.
Desde aquele tempo a controvérsia sobre praticar, ou não, se espada era realmente parte, importante do treino de Aikidô se intensificou.

Indubitavelmente, Morihei Ueshiba, fundador do Aikidô, considerava o treinamento como a espada como uma parte essencial de seu ensino, bem como a sua própria formação. Ele constantemente usou armas, especialmente a espada, para mostrar os princípios do Aikidô.

Por que a esgrima é tão valiosa para a compreensão da essência do Aikidô?
Se estudarmos esta questão por uma perspectiva histórica a resposta se tornará clara.
O-Sensei, segundo ele mesmo, foi o fundador do Aikidô, mas não foi o criador do principio do Aiki. Este princípio foi reconhecido nas antigas tradições da espada Japonesa bem como na filosofia japonesa do Xinto. O-sensei era um devotado estudante do Xintoísmo e passou vários anos estudando a espada japonesa. Entre os estilos de espada que o fundador estudou havia o antigo estilo Kashima que data do século XV. O fundamento desta escola é o conceito de Shinbu, “o caminho marcial divino” em que se vence sem lutar. Para realizar isto se tem que desenvolver-se, física e espiritualmente, ao nível dos Deuses. Vale ressaltar que a escola do Katori Shinto Ryu, também tem o conceito equivalente de vencer sem matar, chama-se “heiho”.

O ideograma SHIN neste caso significa “Divino” e o ideograma BU refere-se à força criativa da vida, o poder do Musubi, ou tornar-se uno com seu parceiro. Isto foi descrito como Hoyo Doka, uma aceitação dos sentimentos negativos dos outros e da reintegração de que esta atitude magnânima volta para aqueles que nos atacam. Na aceitação, e re-absorção, é a habilidade de receber a energia de seu parceiro e unificar-se de tal forma que este poder é reduzido à zero. No Aikidô está é uma boa explanação sobre o que chamamos do poder do Kokyu. Dominar os aspectos espirituais e psicológicos desta habilidade era chamado de Aiki. A palavra Aiki também era usada para denotar o mais elevado nível de maestria no estilo Yagyu de espada onde O-sensei também foi notável.

A realização, realmente incrível, do fundador foi aplicar estes princípios para o treinamento de mãos vazias para uma nova e única maneira.
Por que isto não foi praticado, naqueles tempos antigos, depois de sua morte?
Todos os estilos de espada técnicas de grappling ou formas de Jujutsu, para no caso do guerreiro perder sua arma no calor da batalha, ser capaz de tirar a espada de outro homem quando você estava desarmado. No estilo Yagyu, isto é considerada a maior façanha.

Foi a grande visão espiritual de O-Sensei ao perceber o treinamento desarmado não como grappling, mas como a luta de espada sem a espada. Por isto, Jigoro Kano Sensei, o fundador do Judô, declarou que o Aikidô era a arte que ele havia buscado por toda a sua vida. O-Sensei, através de suas práticas espirituais, percebeu que poderíamos usar nossas mãos, ou mesmo só as nossas mentes, para cortar o ataque ou a defesa de nossos parceiros como se fosse a espada.
Combinando sua visão espiritual com o treino efetivo de espada ele percebeu que era possível estender a influência do Ki, ou intenção, além dos nossos dedos da mesma forma que nosso movimento e alcance são estendidos quando seguramos a espada.

A extensão do Ki é a essência do Mutô ou “espada sem a espada” e não há melhor exemplificação disso do que na prática do Aikidô.
No estudo da espada aprendemos como controlar o Kensen, a linha em que o Kirisaki, a ponta da espada, traça em cada corte.

Para isso devemos capazes de traçar esta linha apenas com nossos olhos da mente. Esta habilidade é um dos segredos da prática do Aikidô. Isto nos permite ver a forma invisível presente em cada técnica e enviar energia precisamente para o local correto no corpo de nosso parceiro. Esta habilidade leva vários anos para ser adquirida.

Sem o treino da espada, fica difícil ao estudante a descoberta disto.
Cortar com a espada japonesa é um movimento expansivo onde a ponta da espada deve estar com unida ao nosso centro.  Por exemplo, o corte diagonal, básico, chamado Kesa Giri, pode ser equiparado ao Ikkyo no treinamento desarmado do Aikidô.

Se uma pessoal realmente domina este corte, ela realiza o Shin Shin Toitsu ou unificação de corpo e mente. Na técnica da espada do Kesa Giri está o segredo do movimento espiral natural. A espada desce pelo seu próprio peso e o peso do corpo vem para guiar esta queda livre. O giro do quadril e a sutil conexão entre nosso centro e a ponta da espada criam uma força sem esforço e velocidade. Exatamente como no Aikidô, esta forma básica de corte com a espada depende de uma continua expansão dos nossos sentimentos; de fato está é a vida do próprio movimento.

Além do mais, o trabalho dos pés e todos os movimentos da esgrima são semelhantes aos do Aikidô. Todo movimento no Aikidô, corretamente compreendido, é um movimento de corte. Afinal de contas, a espada foi criada para se ajustar ao movimento natural do corpo e não o contrário.

Estas são as principais diferenças entre o Aikidô e qualquer uma das várias escolas de Jujutsu. O Nikkyo, Sankyo, e Yonkyo do Aikidô, por exemplo, são realizados como movimentos de corte amplo, e não como chaves de pulso de contração.
Aikidô é uma arte extremamente sutil e difícil. Requer uma vida de dedicação para alcançar sua essência. Por esta dificuldade o Aikidô é quase sempre mal interpretado e praticado, quer como uma forma de Jujutsu ou meramente como exercícios aeróbicos.

Praticar em qualquer uma destas formas falta conteúdo tanto marcial quanto espiritual. As técnicas do Aikidô são ineficazes até que a pessoa tenha compreendido a essência do movimento espiral expansivo e a utilização apropriada do Ki, ou poder interno. Portanto, eles não podem ser efetivamente usados da mesma forma que técnicas de Jujutsu, que dependem amplamente de movimentos contrativos para o propósito de quebrar as juntas do parceiro.

Combinando o estudo da espada com as técnicas desarmadas somos capazes de descobrir o antagonismo complementar sobre flexibilidade e o poder descontraído (relaxado) unidos com nitidez e precisão. Nas palavras do fundador, "no treino desarmado você deve mover como se tivesse uma espada; quando segurando uma espada você não deve depender dela, mas mover-se como se não tivesse nenhuma.” Estudar este Kamae, ou posição, nos mantém centrado na realidade da situação marcial e, ao mesmo tempo, nos permite permanecer flexíveis e relaxados.

Unificar estes opostos é descobrir o principio do Aikidô: Yin e Yang como sendo um, e movimento e descanso como sendo um Irimi-Tenkan como sendo um, a unificação de todos os opostos em uma forma de Monismo dinâmico.

Este artigo pretende dar uma visão geral e as várias semelhanças entre treinamentos armados e desarmados a ser feito com um instrutor qualificado. Não bastarão simplesmente repetir os Kata de espada como formas fixas sem descobrir sua estratégia e conteúdo. Cada estudante, sobre a supervisão de um instrutor qualificado, deverá adquirir a forma de ambos os treinamentos, armados e desarmados, como parte de um todo, e através de contínuas pesquisas, analises, esforçar-se para refinar seu, ou sua, forma individual de praticar em níveis cada vez mais altos de perícia.

Bill Gleason 
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Fonte: http://www.aikiweb.com/weapons/gleason1.html

Middlesex County, Massachusetts, United States, ao norte de  Boston.

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Adaptado e traduzido por: Gustavo N. Santos
Revisado livremente por: J. F. Santos
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 Bill Gleason Sensei é o instrutor chefe da Shobu Aikido of Boston e atualmente mantém o 6º Dan www.aizen.org


sexta-feira, 17 de maio de 2013

O Fluxo de KI, por Kisshomaru Ueshiba



"Ki é um dos difíceis conceitos do pensamento oriental, o qual tem contribuído para o alto padrão da filosofia que nós na Ásia temos herdado de nosso passado ancestral.

Nossos ancestrais acreditavam que ki era a pró vida. Este é o caminho para concentrar a força da vida ou o poder do espírito. Mesmo nos dias de hoje nós usamos muitas palavras que refletem esta herança. Por exemplo, nós sentimos que nada pode ser realizado por uma pessoa que tiver o seu ki caído, desespiritualizado, ou se seu ki definha, estar em baixo espírito. A doença em japonês pode ser literalmente lida como doença do ki e é assim que está ligada em nossas mentes com a morte.

Quando é possível ativar livremente e exibir o máximo do ki qualquer ser humano possui, este leva a um inesperado e forte poder. Ele também permite viver mais livre e mais vigorosamente a vida. Aqui repousa o significado da existência do Aikido. Quando corretamente treinado, uma pessoa torna-se hábil para manifestar seu ki livremente.

Afim de dominar este sentimento, o ki, que é o conteúdo do poder da respiração humana, e o ki original, que é onipresente no universo, devem estar em concordância. A característica que distingue os movimentos do Aikido é que eles harmonizam-se com a ordem do universo e ajustam-se espontaneamente a suas mundanças, por isso em Aikido um treino com o objetivo de conceber a unificação do ki individual com o ki do universo é feito pela alimentação kokyuryoku, o poder da respiração. Quando este poder da respiração é expandido para todas as partes do corpo e enviado para fora diretamente por ambas as facas das mãos, as técnicas do Aikido tornam-se ativas e mostram seu completo valor. Isto leva uma pessoa a tornar-se una com a totalidade da natureza.

É impossível executar a forma da Mãe Natureza em si mesmo se seus movimentos estão aprisionados dentro do ego. O oponente deve ser guiado e feito uno com seus movimentos, enquanto você permanece no estado de espírito que é freqüentemente chamado o domínio do não eu. É aqui que se sente o fluxo vivo do ki. Quando alguém está habilitado a dominar as técnicas Aiki de tal modo que ela fica livre e fluente em seu comando, o adversário poderá ser movido para qualquer lado que se queira por meio do fluxo vivo de ki. Ele terá aprendido a respirar o fluxo de ki do oponente dentro da sua própria respiração e poderá controlá-lo através desta unidade antes do que pela oposição.

Este uso correto do Fluxo do Ki pode ser somente dominado através do treinamento constante do Aikido e pelo uso correto da força da respiração. Assim nós podemos definir o fluxo de ki como sendo o estado no qual a totalidade da força vital que está distribuída para qualquer se humano está sendo demonstrada na mais completa emanação possível".

Fonte: akikai
Outras informações: Kisshomaru Ueshiba foi o terceiro filho de Morihei Ueshiba, o fundador do aikido. Kisshomaru foi o Doshu sucedendo seu pai até o fim de sua vida em 1999. Kisshomaru nasceu em Ayabe em 1921. Ele se formou na Universidade Waseda em economia.

sexta-feira, 29 de março de 2013

O segredo do SEMÊ, segundo SASABURO TAKANO


Abaixo, a interpretação de um trecho extraído de uma entrevista com YASUNORI TANIGUCHI SENSEI (Hanshi, 9º Dan) publicada na Revista Kendo Nippon.


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Na época em que estudava no Tokyo Koutou Shihan Gakkou (atualmente Universidade de Tsukuba), Taniguchi Sensei teve a oportunidade de ser TSUKIBITO (uma espécie de assistente do sensei, designado para carregar o bogu, cuidar dos equipamentos, dobrar o keikogui, etc.) de SASABURO TAKANO SENSEI. Conhecido como “KENSEI (ken= espada/ sei= santo)” Takano Sensei nessa época ultrapassava os 80 anos. Taniguchi Hanshi o considerava como um ser que estava acima das nuvens e nessa entrevista ele fala sobre SEMÊ conforme teve a chance de aprender na fase final da vida de Takano Sensei.

Diferença entre “IR PARA FRENTE” e “FAZER SEMÊ (atacar)”

Durante dois anos que frequentei o Tokyo Koutou Shihan Gakkou fui TSUKIBITO do Takano Sensei que na época o frequentava duas vezes por semana. Ele tinha o dedo deformado pela grande quantidade de treinos que acumulou ao longo do tempo e por isso o acompanhava, chegando até a comprar sua passagem de trem.

Do colégio até a estação eram 20 minutos de caminhada e no meio do trajeto havia um parque onde o Sensei costumava descansar. Quando ficava atrás dele, o aguardando em pé - porque para mim ele era uma pessoa tão elevada a ponto de estar acima das nuvens, inatingível - ele conversava um pouco comigo.

Nesse leva e trás de dois anos foi possível ouvir uma quantidade considerável de conceitos sobre o kendô, e a seguir, falarei sobre as teorias de SEMÊ que ouvi do Sensei durante esse tempo. Apesar de ser o último discípulo do Takano Sensei, acho que tenho que retransmitir os ensinamentos que recebi. Caso contrário, suas boas teorias desaparecerão.

Antes de falar do SEMÊ, vou falar sobre o MAAI (distância). Denomina- se TADASHII MAAI (distância ideal) o ponto onde um KENSAKÍ (ponta do shinai), encontra outro KENSAKÍ. Diz- se TIKAMA (curta distância) ao avançar, e TOOMA (longa distância) ao afastar- se do ponto onde os KENSAKÍ se encontram. Assim, há no MAAI o TADASHII MAAI, o TIKAMA e o TÔMA. O kendô é a batalha do TADASHII MAAI.

É fácil muitas vezes se confundirem, mas sair sorrateiramente do TADASHII MAAI com um passo, apenas para avançar, é somente “ir para frente” e não é SEMÊ. Há muitos que acham que entrar nesse MAAI já é SEMÊ.

Existe uma linha divisória ao discutir sobre kendô. Essa linha separa entre quem consegue obter uma alta graduação dos quê não conseguem. Nessa divisão, os mais graduados compreendem o que é SEMÊ, mas para os menos graduados é algo mais difícil. Por isso, quando o técnico fala para o aluno “Faça semê!” e o aluno simplesmente só entra no TIKAMA, ele não está compreendendo muito bem o quê é SEMÊ.

O conceito básico do kendô é “Fazer SEMÊ com o KI (espírito) e golpear com o RI (razão)”. Ou ainda, seria o verdadeiro conceito “Vencer pelo KI e golpear com o RI”. O objetivo de fazer SEMÊ é criar a oportunidade de dar o DATOTSU (golpe válido). SEMÊ não é simplesmente avançar de forma mecânica. O fundamento que rege o SEMÊ é a criação de oportunidades. Por isso, superficialmente há uma certa impressão de que se está indo para a frente. Mas, para avançar, é necessário que o espírito tenha vencido antes. Esse “Vencer com o KI”, “Fazer SEMÊ com o KI” têm como objetivo conquistar a oportunidade de criar o DATOTSU. Esse conceito é o princípio básico do kendô.

Então a seguir vêm a dúvida: “O quê é a oportunidade de dar o DATOTSU?”. Ou, ao contrário: “Como fazer SEMÊ para ter essa oportunidade?”.

Como o SEMÊ é para criar a oportunidade de dar o DATOTSU, então é necessário saber quais são essas oportunidades. Takano Sensei dizia que há 6 oportunidades favoráveis. A primeira é “Eliminar a verdade do adversário e golpear sua mentira”. A verdade é quando o KIHAKU (espírito com intensidade), o KEN (espada) e o TAI (físico) do adversário estão plenamente conjugados. Falando mais facilmente, a verdade do adversário é quando este está com postura combativa do tipo “Vou atacar!”. Com sua verdade e seu SEMÊ eliminados, o adversário defende ou então se assusta com o SEMÊ que recebe e se afasta. Essa é a sua mentira. Golpeia- se essa mentira. Também é assim quando o KI está ausente. O KI se ausenta no momento em que seu físico se esgota. Vira mentira quando o KIHAKU fica deficiente, quando desaparece a vontade dele de golpear ou quando sua postura psicológica está abalada. Eliminar a verdade e golpear a mentira. Essa é a condição número um para se ter a oportunidade de dar o DATOTSU.

A segunda, é a atitude do adversário. A atitude física. Golpeia- se no início do WAZÁ (golpe) dele. Por isso é primordial que exista uma predisposição de se fazer SEMÊ em linha reta ou em diagonal. É um SEMÊ exatamente para esse tipo de situação. Mas antes de se conseguir fazer isso a sua intenção, o seu KI deve ser vencido.

Takano Sensei chamava a terceira oportunidade de “KÔGUISHIN”. KÔGUI é quando se tem medo com relação ao adversário. Um sentimento do tipo “meu adversário é muito forte”. Ele dizia que deve- se golpear assim que esse sentimento surgir em você.

Outra oportunidade, é o momento em que o adversário se acomoda. Isso é quando o pé dele não está em postura de avançar, mas se apóia para trás. Ou seja, quando o calcanhar toca no chão e a parte da frente do pé fica levantada. Ou também, quando as pernas dele estão afastadas.

Também falava que  “precipitar a atitude do adversário”, cria oportunidades. Tanto psicologicamente, quanto tecnicamente. O adversário somente “vem acertar” apressadamente você porque a sua defesa está muito sólida. E nesse caso, o adversário vem lhe golpear desesperadamente. Uma outra forma de precipitá- lo é você tentar dar o DATOTSU agressivamente. Se você for com firmeza e intensidade, com certeza ele se precipitará.

A sexta oportunidade é quando o WAZÁ do adversário se esgota. O momento em que o adversário não consegue dar WAZÁ depois da postura defensiva que tomou ao receber RENZOKU WAZÁ (golpes seguidos) é o seu esgotamento. Ou também quando o adversário tem seus golpes anulados ou defendidos e ele não tem mais golpes além dos quê foram invalidados. Esse esgotamento ocorre quando os pés dele param.

Essas são as 6 oportunidades que Takano Sensei dizia serem imprescindíveis para golpear. No caminho da volta, ele comentava muitas vezes “Recebi muito SEMÊ hoje e meus WAZÁs acabaram se esgotando”. Mas, ele dizia que a própria pessoa tinha que pensar no quê fazer quando seu WAZÁ se esgota. Ele nunca dizia “Hoje o adversário se acomodou. Teve medo e não conseguiu avançar. Por isso, faça isso, ou faça aquilo”. Pois se há 10 pessoas, essas 10 serão diferentes umas das outras. Dizia que esse era um tipo de aprendizado que se adquire fazendo KEIKO (treino de combate) .

Também há “3 pontos imperdoáveis”. São pontos que nunca poderão ser esquecidos com relação ao DATOTSU. Um é o momento em que o adversário consegue deter o golpe. Ou seja, o segundo TACHI (espada). As pessoas hoje em dia costumam voltar ao início após seu golpe ser defendido. Ou fazem SEMÊ exatamente da mesma forma. É o cúmulo da loucura. Se vai para o WAZÁ de MEN, depois faça o WAZÁ para baixo. Como o DATOTSU no kendô é um movimento circular, o MEN é um corte feito com HIKIGUIRI (cortar puxando). Sendo um movimento circular, se o adversário defender o SEMÊ que foi feito por cima, facilmente dá para você ir por baixo. No caso do seu KOTÊ ser descartado ou defendido, vá para cima. Ou se o MAAI está muito distante vá no KOTÊ KOTÊ MEN. Essa é a potência do TACHI. No kendô atual se “espeta” para a frente e se golpeia. A dificuldade de se bater um próximo WAZÁ ocorre porque um WAZÁ “espetado” não é um movimento circular.

Atualmente, ao assistir aos SHIAIs (lutas) dos estudantes vejo que está ISSOKU (um pé) NITTÔ (duas espadas), ou seja enquanto está se dando um passo golpeia- se duas ou três vezes, mas assim não é possível cortar. O Sensei ensinava que kendô é ISSOKU ITTÔ (um pé, uma espada). Se der um passo, dá- se também apenas um TACHI. O kendô que aprendi é o “kendô que corta”, mas atualmente virou o “kendô que acerta”. Ao assistir o ZEN NIHON SENSHUKEN TAIKAI (Campeonato Japonês de Kendô) acho que não consigo “cortar acertando” daquele jeito e anualmente vejo lutas que não são de kendô.

A segunda coisa imperdoável dentre as três é como pensar a atitude. Quando me refiro à atitude, é sobre a atitude física. Mas, para ser compreendido mais facilmente é perceber o movimento dos quadris e a atitude das mãos do adversário. Isso não pode ser ignorado. E não somente ver isso no adversário, como se fosse uma parte separada. Miyamoto Musashi dizia “Mirar uma montanha distante”, há quem diga também “Mirar o KOYÔ (fenômeno natural do outono japonês em que as folhas ficam vermelhas e o conjunto dá a impressão da montanha estar toda tingida de vermelho)”. Significa que não adianta na época do KOYÔ ver as folhas uma por uma, em separado. Se você fizer o KAMAÊ pensando que o quê está longe está perto e mostra o contrário ao adversário, de fato o KAMAÊ começa a ficar desse tipo. Mesmo que o adversário tenha a mesma altura que você, pense que para o adversário você está distante, mas para você ele está próximo. Ele dizia que isso na verdade não existe,  mas psicologicamente isso se torna um fato. Não consegui perguntar a ele como conseguia fazer isso. Igual ao ZEN (refere- se ao Budismo), como uma reflexão de meditação, fazia KEIKO pensando de quê forma conseguiria mostrar- me grande aos olhos do adversário. Muitas vezes era como se o shinai do adversário parecesse grande. Isso não ocorre na verdade, mas esse tipo de fenômeno começa a surgir dependendo da quantidade de KEIKO que você praticar. Quando tentei atacar o Takano Sensei, também senti o shinai dele vir intensamente e tive a sensação de ser engolido por uma onda enorme.

E o terceiro, é o corpo se acomodar.

Se acumular tanto os 3 pontos imperdoáveis, quanto as 6 oportunidades do DATOTSU, entenderá o SAN SAPPOU (lei dos 3 assassinatos). SAN SAPPOU é matar o KEN, matar o WAZÁ e matar o KI.

Primeiro, ao matar o KEN, analise se ao golpear um KEN vivo o KENSAKÍ do adversário vem espetar rapidamente à altura do pescoço, ou se faz o contra- golpe. Ele dizia que ao perceber o KENSAKÍ do adversário você deve golpear algo, bater no shinai, fazer UTI OTOSHI (bater no shinai do adversário com a intensidade de derrubá- lo) e assim, matar o KENSAKI do adversário. Miyamoto Musashi dizia para o golpear, ou bater, ou repelir, ou até envolver o KENSAKÍ. Vejo muitas vezes os KENSAKIs se baterem desordenadamente, mas existe uma diferença entre as pessoas que fazem conscientes àquelas que fazem somente porquê o KENSAKI do adversário está atrapalhando. Também parece- me que quando estão no TADASHII MA os senseis de alta graduação sabem se o KENSAKÍ do adversário está vivo ou morto. Falando ao contrário, pessoas que não entendem isso não conseguem obter uma alta graduação.

Para matar o WAZÁ é necessário analisar a condição física do adversário. Generalizando, quem tem estatura baixa consegue ter intensidade no RENZOKU WAZÁ e se movimenta agilmente para os lados. Quem tem alta estatura, ao contrário, tem seus movimentos para os lados mais lentos e os golpes são triviais, monótonos. Mas também, para acertar só precisam esticar o braço. Esses aspectos devem ser rapidamente captados.

Há agora, a necessidade de se saber o SEIGAN NO GOHÔ (as 5 leis do SEIGAN) do CHUDAN NO KAMAE (kamae do meio, em que a ponta do shinai é voltada para o corpo do adversário). Existem diferentes denominações para os locais onde a extensão do shinai toca no adversário. Como o shinai é reto, é fácil de se compreender amarrando outro shinai em seu extremo. Se o KENSAKÍ dessa extensão tocar na testa é SEIGAN 晴眼. Se tocar no olho esquerdo é SEIGAN 青眼 (a pronúncia em japonês é a mesma, mas a escrita é diferenciada). Usualmente quando citam a palavra SEIGAN se referem a esse 青眼 , o do olho esquerdo. O quê toca entre as sombrancelhas, no meio, é o SEIGAN 星眼. Ao tocar na garganta é SEIGAN 正眼. Ao tocar no umbigo diz- se SEIGAN 臍眼. Ele dizia que para dar vida ao seu KENSAKÍ, deve- se utilizar o 晴眼 (testa) para pessoas altas; para lutar contra JODAN (KAMAÊ em que a ponta do shinai aponta para o céu) o青眼(olho esquerdo); se o adversário tiver a mesma estatura que você o 正眼 (garganta) e no caso de pessoas com estatura mais baixa que a sua o 臍眼 (umbigo).

Se pensar dessa forma não se pode simplesmente argumentar sobre a questão de “Como deve- se fazer SEMÊ para atacar?”. Acho que um dos argumentos é o motivo em si de se fazer SEMÊ. Se faz SEMÊ para o DATOTSU. A forma de se fazer o SEMÊ leva em consideração o SAN SAPPOU, as 6 oportunidades e os 3 pontos imperdoáveis. Insira em sua mente essas 12 condições e nunca as esqueça. Não é ir simplesmente para frente; se faz SEMÊ para conseguir essa chance oportuna.

Há um ditado na arte do YUMI (arco e flecha japonês) que diz: “Se a oportunidade está amadurecida, mesmo antes de se atirar, o alvo já foi acertado”. Significa que quando a oportunidade está amadurecida dá para saber, mesmo antes de soltar a flecha, se a pessoa vai acertar o alvo ou não. Isso também se relaciona ao kendô. Não solte o WAZÁ antes da oportunidade estar amadurecida. Solte seu WAZÁ quando você estiver vencendo no SEMÊ pelo KI. Ele dizia que sem sentir isso não se deve soltar o WAZÁ.

TANIGUCHI YASUNORI: TAKANO SASABURO KARA KIITA SEMÊNO GOKUI. Revista Guekkan Kendo Nippon, Japão, ed. no. 278, p. 54-56, abr. 1999.

Fonte: http://kendoemportugues.blogspot.com.br/2010/08/o-segredo-do-seme-segundo-sasaburo.html