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sexta-feira, 21 de março de 2025

TANTO FEITO NO BRASIL


No mundo da espada Japonesa. 

 Trinta e quatro anos depois, uma outra peça rara e interessante aparece... 

 Por Laerte E. Ottaiano expert e polidor de espadas japonesas (Nippon-tô). 


    Como é fato conhecido publiquei no ano de 1989 no nº 39 da revista Bijutsu Token (edição em inglês) da NBTHK do Japão um artigo intitulado “A força da tradição” uma descoberta curiosa na terra “do outro lado do mundo”, relatando haver encontrado em São Paulo uma espada japonesa assinada “Kikuchi Enju Tatsukuni” que como fiquei sabendo pelo proprietário, havia sido produzida no Brasil em 1946. Como não houve mais contato com o colecionador, não se sabe mais nem onde ou com quem se encontra esta peça. 


    Muito bem, agora mais uma vez, algo aconteceu. Poucos dias antes do natal de 2009, fui visitado por um velho conhecido, o cuteleiro Roberto Gaeta, para quem tenho prestado alguns serviços de polimento de lâminas. Nesse dia encomendou mais um trabalho: apresentou-me um “tanto” montado em “shirassaya” de pinho brasileiro e pediu-me para tratar a lâmina e produzir uma montagem digna. Ao abrir para ver o tipo de lâmina que eu deveria tratar, encontrei uma lâmina correta (hirazukuri) com sulco em um dos lados (frente).Vide fotos. Havia sido passada em politriz de roda de pano, portanto não estava enferrujada. Como sabemos a politriz traz um brilho excessivo e esconde características como textura de superfície e linha de têmpera. Tal como pude observar era possível fazer o polimento tradicional correto. Fui informado sobre uma linha ou desenho de têmpera, olhando com mais atenção e com melhor ângulo de luz, foi possível vislumbrar este detalhe. 

     A seguir, abrimos a empunhadura para examinar o “nakagô”. Para a minha surpresa, havia em bela caligrafia, uma assinatura com dois caracteres lendo-se “Sukemune” e do outro lado do “nakagô” uma data em numerais japoneses (com outro tipo de caligrafia) lendo-se “1976 ano”. O “yassuri-me” (marcas de lima) e a cor não são exatamente regulares más plenamente justificáveis em função da época e do autor. O proprietário desconhecia o nome Sukemune más conheceu, porém o finado e caro Srº Yoshisuke Oura que viveu na área de Moji-Suzano e foi conhecido “Espadeiro” produzindo kataná para treinamento de Iai e Kendô, especialmente para a colônia japonesa durante quase três décadas: de 1948 (a sua primeira espada) até 1980 a última espada. 


    Oura sensei havia adotado o nome artístico de Sukemune baseado num dos grandes espadeiros do Japão da província de “Bizen” da era “Heian Kamakura” e produzia suas espadas com a forma de curvatura de “Bizen” (koshizôri) e têmpera ao mesmo estilo conhecido como“gunomê-notarê. O aço utilizado era brasileiro ou sueco em barras, com teor de carbono 1045. A têmpera mesmo sendo clara e visível, era produzida com temperaturas mais baixas que aquelas no Japão, produzindo assim menor diferença de dureza entre a área temperada e não temperada. Oura sensei produzia também montagens dentro de âmbito de suas habilidades pessoais. 

    Nessa época Oura sensei era o único com capacidade de polidor, tinha todas as pedras necessárias, materiais de acabamento e a técnica. Eu era um dos seus clientes de polimento para espadas que trazia do exterior. 

    Em 1970 o sensei sofreu um acidente e precisou de um longo período de recuperação. Em 1972 quando lhe fiz uma visita de cortesia, Oura sensei declarou que não poderia mais prestar serviços, pois se encontrava muito debilitado. 

    Nessa ocasião argumentei sobre a minha necessidade de prosseguir com minha coleção e, portanto ter as lâminas polidas, surgindo nesse momento a idéia de aprender com ele a arte do polimento, com o que Oura sensei concordou sorrindo. Três anos se passaram, recebi lições e instruções preciosas no seu atelier em Suzano. 

 No final de 1975 recebi do Japão, um conjunto de pedras, materiais e instrumentos de acabamento, podendo daí por diante prosseguir praticando no meu próprio local de trabalho. Desde então e até hoje, pratico a arte do polimento e posso dizer com orgulho que meu trabalho pode ser igualado a qualquer outro profissional do Japão na modalidade chamada “Sashikomi”. 

 Agora na passagem do ano de 2009 para 2010, aparecendo como que por encanto, este “tanto” aliás, o primeiro e único que eu havia jamais visto assinado e datado de 1976, vem ás minhas mãos para ser “salvo”, o que faço com a maior satisfação e orgulho. Vale também dizer que “tanto” de mestre Oura são raros, pois que dizia ele, “podiam ser usados como armas, enquanto que as “kataná” não eram carregadas por aí à toa...” 

 Concluindo, além dos fatos usuais do dia a dia relativos ao nosso prazer e à nossa paixão pelas Nihon-tô, um fato como este deve ficar registrado, uma vez que traz o inesperado, e a peça de caráter único, que provavelmente, não mais se repetirá. Este é também um bom motivo para rever velhas lembranças e agradecer ao espírito do caro Oura sensei.

Laerte E. Ottaiano.
 Fevereiro de 2010.
 São Paulo SP. Brasil




Apêndice Dados do tantô 

 Montagem Originalmente “shirassaya”.

 Atual: “aikuchi koshirae”, em laca preta por Laerte E. Ottaiano. 

 Lâmina Medidas - Comprimento: 21cm; largura base: 2.2 cm. 

 Material - aço 1045.

 Forma: “hirazukuri” (um plano de superfície), yorimune (dorso em v invertido). 

 Gravação (horimono) – “bo hi” (sulco na face da frente). 

 Particularidade – “niku tsuki” (superfície cheia) e “fukura tsuki” (ponta cheia).

 Curvatura: ligeira sakizori (na ponta).

 Pele (hada): muji -sem padrão.

 Têmpera (hamon): gunomê midarê Têmpera na ponta (boshi) quase sem volta. 

 Nakagô Forma: futsu (comum). 

 Yassurime (marcas de lima) kate sagari (irregular). 

 Furo (mekugi-ana) 01.

 Terminal: assai kurijiri. 

 Mei (assinatura): Sukemune (frente). 

 Data 1976 ano (atrás). 













sexta-feira, 5 de julho de 2013

Tomizo Ishida Sensei - Katana Kaji - Mestre Forjador de Espadas Japonesas.



A origem de um Katana Kaji, Mestre Forjador.
Tomizo Ishida Sensei pode ser considerado o mais criativo e inovador dos artesãos japoneses que produziram katana no Brasil. Nasceu em Gumma, próximo a Tóquio, em 24 de novembro de 1924, tendo chegado ao Brasil com seus pais em 1933, para trabalhar em uma fazenda de Mirandópolis, São Paulo.
Desde sua infância, Tomizo Ishida Sensei teve fascinação por espadas japonesas, embora não descendesse de uma família de "espadeiros".

Em 1949, aos 25 anos, Tomizo Ishida Sensei resolveu vir para a cidade de Mairiporã (a 50 km da capital paulista). Poucos anos depois tornou-se relojoeiro e ourives, abrindo seu próprio negócio.
Apenas em 1962 que Ishida Sensei decidiu se iniciar na produção de espadas japonesas. Foi de forma amadora que começou a produzir exemplares de katana, wakisashi e tatchi, baseando-se apenas em livros que parentes do Japão lhe enviavam. Posteriormente, teve contato prático com Oda Sensei e Oura Sensei, renomados artífices de espadas japonesas no Brasil.
Ao longo dos anos, Ishida Sensei se tornaria conhecido não só por forjar boas katana, mas também por produzir furnituras tais como tsuba, fuchi, kashira, menuki e saia, itens que naquele momento eram considerados os mais aprimorados dentre os oferecidos pelos mestres espadeiros japoneses radicados no Brasil.

Tomizo Ishida Sensei foi, desde o início de sua atividade de katanakaji (forjador de katana), inovador em suas criações, tendo desenvolvido um método próprio de trabalho, interpretando as clássicas espadas japonesas e adaptando-as ao seu estilo e experiência pessoal como praticante de Iai Do (estilo de esgrima japonesa, bastante diferente do Kendo conforme o conhecemos hoje, que se caracteriza pelo saque preciso, rápido e fulminante). Assim, a maioria das criações de Ishida Sensei fugiu de algumas regras convencionais e ortodoxas que essas clássicas espadas têm. Entre as mudanças destacam-se:
O orifício da passagem do pino (mekugi-ana) que trava a lâmina é sempre colocado um pouco mais para trás do que o habitual. Dentro da geometria de suas katana, Ishida Sensei entendia que isto as travava melhor e de forma mais "sólida".

A espessura da lâmina é levemente menor e a largura pouco maior do que os padrões tradicionais, tendo em vista o entendimento de que os aços modernos são naturalmente de melhor qualidade, e que tudo isso proporcionaria um equilíbrio mais adequado ao sabre.
A linha de têmpera é mais alta do que a convencional. Alguns katanakaji modernos do Japão também adotaram essa técnica a partir de 1960, quando lá reiniciou-se oficialmente a produção de espadas; com isso, eventuais pequenos "dentes" da lâmina poderão ser retirados no re-polimento sem diminuição consistente da área temperada.
Em algumas criações especiais ou para uso pessoal, o primeiro seppa (espaçador), aquele na junção entre a empunhadura e a tsuba, é em couro laqueado. Segundo Ishida Sensei, o objetivo é amortecer mais as vibrações ocasionadas por golpes, que, de outra forma, seriam forçosamente passadas às mãos do espadachim.




A técnica de forja de Ishida Sensei.
Assim como Kunio Oda, Ishida Sensei forjava suas espadas na técnica maru-gitae inicialmente usando aço carbono 1045, posteriormente passando ao aço do tipo RCC (designação comercial; equivalente ao atual VC-130) por seu maior conteúdo de carbono.
A criatividade de Ishida também podia ser observada no hamon de suas katana, pois o artesão o produzia em 3 (três) tipos: 
- gunome (sucessão de picos irregulares)
- notare (ondas) 
suguha (quase reto)

Nas furnituras que decidiu produzir, a preferência de Ishida recaiu naquelas de "estilo primitivo", rústicas mas muito robustas, a maioria sendo fundidas a partir de moldes que o próprio artesão, como ourives que era. A marcante preferência do artesão por motivos de dragões era revelada nas kashira (pomos) e nos menuki. Os fuchi (calços) com a figura de um sábio japonês lendo escrituras sagradas foram uma constante a partir do final da década de 1970.

Por ser praticante de Iaido do estilo Shinto Ryu (mesmo estilo praticado pelo Mestre Akira Tsukimoto), Ishida Sensei desenvolveu especial predileção pela manufatura de uchigatana (literalmente, espadas de combate), com lâmina de comprimento entre 53 e 62 cm, e é neste tipo que encontram-se algumas de suas mais refinadas criações.
Para seus uchigatana, Ishida Sensei chegou a desenvolver um tsuba próprio, inspirado num original muito antigo, o qual acabou tornando-se uma das preferidas da clientela. Embora obtida por boa fundição, os detalhados desenhos de flores, folhas, bambus (que por vezes tornavam-se feixes de palha) e a rede de pesca vazada em cerca de 50% de sua área exigiam do artesão demorado e detalhado trabalho de retoque.
Seus habaki (ou colarinhos da lâmina) são sempre de cobre, lisos, imediatamente reconhecidos por generosa espessura e um pronunciado chanfrado na parte dianteira, para facilitar sua entrada na bainha.
Ishida Sensei usou tanto same (pele de arraia) importado quanto nacional e era relativamente freqüente o artesão tratar os de granulação fina com laca dourada em técnica similar a usada no Japão feudal para montagens de alto luxo, o que lhes concedia uma aparência mais destacada. Entretanto, Ishida Sensei apenas usou fitas importadas, de seda ou algodão, mas a maioria na cor negra.
A quase totalidade das criações de Ishida apresenta montagens completas, do tipo bukezukuri (literalmente, ao modo da casa dos samurais).
Ao contrário das saia (bainhas) da fase inicial, só negras, pintadas, criações das fases intermediárias (a partir de 1978) e final as apresentam em lacas de cores variadas, mas com nítida preferência pela aplicação de grânulos pequenos e esparsos de purpurina multicolorida, também como algumas originais antigas de alto luxo.
Ishida Sensei apenas assinou criações cuja lâmina tivesse o desenho de um detalhado dragão numa das faces, lavração que ele mesmo executava a buril. Na maioria das demais criações, usou marcas de lima do tipo katte-sagari (levemente inclinadas), nos nakago cujas formas eram, na maioria dos casos, comuns (futsu), com cortes terminais em "V" irregular (iri-yamagata) ou em linha reta (kiri).



Reconhecimento do Forjador Mestre Espadeiro.
Yoshisuke Oura considerava Ishida Sensei como um discípulo forjador e o tratava com respeito, sendo também freqüentes os cumprimentos pela alta qualidade de suas bainhas e o desenvolvimento de furnituras elaboradas. Quando Oura faleceu em 2000, uma das coisas que legou a seu filho Haruo foi um conjunto de 3 tsuba especialmente confeccionadas por Ishida Sensei e que dele havia ganho.
Em 1988, com as comemorações oficiais dos 80 anos da imigração japonesa para o Brasil, Ishida foi comissionado pelos organizadores das festividades para confeccionar uma espada alusiva ao fato. O artesão forjou então uma soberba lâmina e para ela projetou uma montagem totalmente executada em bambu e com fitas de couro, como algumas raríssimas originais pós 1860. Essa inusitada criação, Nagasa de 78 cm, foi exposta durante boa parte daquele ano no famoso Bunkyo da Associação Cultural Japonesa, no bairro da Liberdade.
Em 1991, ele e sua esposa foram agraciados pela sociedade japonesa no Brasil com os títulos de comendadores grã-cruz por sua contribuição às artes nipônicas no Brasil.
Em sua primeira fase, produziu cerca de 350 espadas e informou que de tanto forjar lâminas durante longos períodos sem interrupção comprometeu muito a audição de um dos ouvidos. O artesão teve 3 filhos homens, mas nenhum seguiu seu ofício.
A partir do final da década de 1980, Tomizo Ishida Sensei diminuiu muito a produção das katana, vindo a encerrá-la oficialmente em 1992. Entretanto, a partir do final de 2004, felizmente, Ishida Sensei retomou a produção de espadas em edição limitada de suas famosas katana.




Ishida sensei atualmente é considerado pelo governo japonês um tesouro nacional fora do Japão.




Fonte :http://ishida.atipico.com.br




sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

CONFECÇÃO DO KATANA, MORADA DA ALMA



Para a completa construção de uma espada e de todas as suas partes são necessárias muitas etapas que vão desde a criação do aço utilizado até a construção de sua bainha. Hoje muitos cuteleiros se especializaram em algumas etapas da criação, ou seja, um cuteleiro faz a lãmina, outro é responsável pelo polimento, outro pelo habaki e outro pela bainha, isso faz com que a espada seja o mais perfeito possível em todas as suas características.

Criação do aço - É a primeira e mais importante etapa da fabricação da espada. O tamahagane, que é o aço japonês, é feito em pequenas fundições chamadas tatara. Este aço chega ao cuteleiro em uma forma meio bruta, aonde este refina o aço até o estado desejado.

Forjar o aço - É neste estágio que a espada começa a tomar forma, o bloco de metal começa a tomar forma e chega a ser dobrado dezenas de vezes até atingir o ponto exato . Ê neste estágio que se coloca a jaqueta de metal mais duro na lãmina.

Eliminar irregularidades - O cuteleiro praticamente raspa a espada para retirar algumas imperfeições.

Hamon - Depois de retiradas quaisquer imperfeições, o cuteleiro prepara para ser usado na criação do Hamon. Nesta etapa a espada com o barro é aquecida e rapidamente resfriada. É a variação na temperatura do barro com o metal que cria os desenhos do Hamon.

Sulcos e Figuras Decorativas - Os sulcos são feitos paralelamente 'a lãmina cortante. As figuras decorativas são escavadas na lãmina e possuem temas variados como dragões, flores, deuses e e etc.

Dando Forma ao Tang e Assinando a Lãmina - O cuteleiro dá forma ao Tang e se o trabalho for considerado bom, assina seu nome no Tang. Além do mais, caso queira, poderá colocar data e outras informações.

O Polimento - O polimento pode ser considerado uma arte por si próprio, requer muita técnica e atenção. Um polimento mal feito pode estragar todo o trabalho anterior. E no polimento que a lãmina mostra toda a sua beleza, são usados diversos tipos de pedras para amolar, entre as quais várias de tamanho mínimo.

O Habaki - Após o polimento da lãmina, esta já está pronta para receber o Habaki, que é uma peça de metal decorado que é colocado como um separador entre a lãmina polida e o Tang. O Habaki, além de decorar a espada, tem a função de manter a lãmina fixa na bainha, sem deixa-la escorregar. O Habaki é muitas vezes ornamentado com ouro e cobre.

A Bainha e a Empunhadura - A bainha da espada japonesa é feita da madeira de uma árvore chamada Ho. A bainha consiste de duas peças de madeira que são talhadas internamente na forma da espada, e então unidas. Depois de unidas a bainha é polida e está pronta para ser decorada. A empunhadura também é feita do mesmo material da bainha, e além disso ela também segue a mesma forma da bainha.